Os disfarces do cigarro

Frederico Fernandes

Mais de um bilhão de dependentes. Pessoas que alimentam um vício cruel, responsável por cerca de cinco milhões de mortes por ano e por 30% de todos os óbitos por câncer. A dependência da nicotina é pandemia que, graças ao esforço conjunto de Estado, ONGs e profissionais de saúde, vem sido combatida.

A lei antifumo, em vigor no Estado de São Paulo desde agosto de 2009, é importante vitória contra o tabagismo. Com ela, ficou proibido o uso de cigarro em ambientes públicos fechados. Essa medida diminui a poluição tabágica ambiental que prejudica a saúde até de quem não fuma, e também reduz a visibilidade do cigarro, atuando, assim, como uma forma de prevenir a iniciação.

Porém, a nicotina não está presente apenas em cigarros. Diversos produtos são derivados da folha de tabaco. Além de fumados, podem ser mascados, inalados e aspirados. Todos contêm a mesma substância causadora de dependência e, em muitos casos, escondem riscos à saúde tão intensos quanto os do cigarro.

Alguns fumantes, que não conseguem suportar os fortes sintomas de abstinência que afloram quando tentam reduzir ou parar de fumar, muitas vezes acabam substituindo o cigarro por charutos ou cigarrilhas, que têm até três vezes mais nicotina. Alguns charutos chegam a 10 vezes mais substâncias tóxicas que o cigarro comum. Quem troca 20 cigarros por dia por dois charutos pode pensar que reduziu os danos a sua saúde, mas, na verdade, continua se expondo a mesma quantidade de compostos nocivos.

O cigarro de cravo (Kretek), bidis e cigarros mentolados têm, misturado ao tabaco, açúcares e alcalóides que conferem sabor e reduzem o incômodo presente nas primeiras tragadas. São frequentemente oferecidos a jovens, funcionando como iniciação ao hábito de fumar. Esse tipo de produto é proibido em países como EUA e Canadá.

A disseminação do Narguilé também é preocupante. Uma "sessão" equivale a fumar entre 20 a 100 cigarros. Muito usado entre jovens, sua fumaça é mais tóxica que a do cigarro, pois a queima do tabaco é incompleta, deixando mais resíduos. Além disso, o uso em grupos o transforma em um disseminador de doenças infecciosas como tuberculose e hepatite.

No combate ao vicio da nicotina é importante reconhecer o inimigo nos seus muitos disfarces e estar alerta aos perigos que ele oferece. Todos os produtos derivados do tabaco, independente da maneira que forem utilizados, são nocivos a saúde e causam dependência de difícil tratamento.

Frederico Fernandes é pneumologista do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp)